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5 riscos que os “conservadores” podem correr sem perceber

“Sabe o que é, sou conservador (a).” Essa é uma frase muito comum quando o assunto é investimentos. Mas o que é ser conservador?

Segundo o dicionário Michaelis, o conservador pode ser “aquele que conserva” e é “caracterizado pela prudência e moderação”. Em investimentos, dependendo da análise de perfil de risco de cada instituição financeira, é aquele que deveria ter aplicado a maior parte de seus investimentos em renda fixa e uma parcela menor em multimercados e renda variável. Não vou entrar no mérito de quanto, pois cada lugar tem a sua recomendação.

O que interessa é observar os riscos que as pessoas que se consideram conservadoras estão sujeitas, sem fazer a menor ideia. Disclaimer: a ideia não é criticar ou defender um ou outro tipo de investimento, mas trazer a reflexão sobre os riscos que podem não são percebidos, seja por falta de educação financeira, por aspectos do comportamento ou culturais, como o de seguir conceitos tradicionais.

 1- Deixar o dinheiro perder valor

Na época do meu avô, esse tipo de conservador guardava o dinheiro embaixo do colchão, para o caso de ter recursos diante de algum evento iminente. Hoje é quem tem todo o patrimônio em conta corrente ou na caderneta de poupança nova (a que recebeu depósitos após 03/05/2012).

A impressão é que não há nenhuma perda deixando tudo do jeito que está. Em geral, só se percebe que há algo errado quando é preciso comprar um bem com o valor aplicado e ver que não é possível, pois os preços subiram e o dinheiro não acompanhou a inflação.

2- Falsa proteção de capital

“Ganhe 18% ao ano, sem poder resgatar o valor em três anos, ou receba de volta o dinheiro que investiu.” Esse tipo de aplicação tem o conceito de capital protegido. Ele geralmente é estruturado para oferecer um retorno elevado, desde que não se mexa no recurso em um determinado período. Se tudo der errado, porém, o investidor tem de volta o mesmo valor que aplicou, sem mais nem menos. Parece muito bom, mas nessa oferta há riscos que podem ser ignorados.

Se receber apenas o que aplicou depois de três anos, a pessoa não terá o dinheiro corrigido pela inflação, portanto não protegeu o capital investido da alta de preços. Outro risco é o de perder a oportunidade de ganhar mais em outros investimentos, principalmente se houver uma mudança de cenário econômico, porque deixou o dinheiro travado.

3- Imobilizar o patrimônio, sem considerar custos

Comprar muitos imóveis e viver de renda de aluguel é a estratégia certeira. Quem nunca ouviu isso de pais, tios, cunhados e avós? No Brasil é difícil não ter escutado, e no passado realmente pode ter sido a melhor coisa. Afinal, antes de 1994 – e isso não faz tanto tempo –, a inflação era a vilã e o dinheiro perdia valor rapidamente se não fosse aplicado em algo concreto.

Essa ideia ficou no DNA e os riscos que as pessoas que amam imóveis correm são o de não descontar todos os custos que terão com esse investimento (manutenção, Imposto de Renda sobre o aluguel e o custo quando fica desocupado). Quando tudo isso é levado em consideração, pode não ser o melhor investimento em termos de retorno.

O segundo risco que corre quem tem todo ou quase todo o patrimônio em imóveis é o de ficar sem liquidez (possibilidade de ter acesso ao dinheiro rapidamente e sem perdas). Afinal, tijolo não paga boletos.

4- Precisar da certeza de quanto vai ganhar

Há pessoas que só se sentem confortáveis se souberem, com certeza, no ato do investimento, quanto vão ganhar. Em geral, investem tudo ou a maior parte do que têm em títulos prefixados, que geralmente têm vencimentos para daqui mais de um ano.

Quanto mais distante o vencimento, maior o retorno oferecido. Aqui há o mesmo risco dos exemplos 3 e 2: o de ficar sem disponibilidade do dinheiro em caso de necessidade e precisar pegar um empréstimo. E o de perder a oportunidade de ter ganhos em outros investimentos caso o cenário mude, principalmente em prazos longos, de três, cinco anos para cima.

5- Acreditar na promessa de retorno irresistível

Esse ficou por último, mas podia ser o primeiro, já que durante a pandemia, as ofertas de pirâmides financeiras cresceram a ponto de resultar em uma força-tarefa pelo Conselho Nacional de Defesa do Consumidor (CNDC).

A taxa básica de juros (Selic) no menor patamar da história, somada à crise sanitária, estimulou muitos “conservadores”, que tinham medo de investir em ações, a arriscar em ofertas fraudulentas que em geral envolvem operações com criptomoedas, câmbio e day trade. Dessa forma, correm o risco extremo, de perda total do capital investido. Por isso é bom desconfiar se o retorno prometido for muito elevado, sem nenhum risco. Porque isso não existe no mundo real. E se tiver dúvida, sempre pesquise a empresa que está oferecendo o investimento no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Rejane Tamoto é planejadora financeira CFP®, jornalista e sócia da FIDUC. Voluntária na Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros-, tem como missão transformar positivamente a vida financeira das pessoas e contribuir para o crescimento dessa profissão no país.

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Do jogo para as finanças: o que aprender com O Gambito da Rainha

Uma das minisséries mais assistidas da Netflix em 2020, com audiência superior a 62 milhões de views nas primeiras quatro semanas de lançamento, O Gambito da Rainha também traz insights que podemos extrair do xadrez na hora de tomar decisões financeiras.

Bem avaliada por reproduzir com fidelidade os jogos, a série também atrai pela produção e atuação de Anya-Taylor Joy no papel da garota prodígio Beth Harmon, que aprende a jogar no orfanato e sonha ser supercampeã. A série prende atenção do início ao fim e emociona por ser uma história de superação da personagem, também viciada em calmantes e álcool.

Tudo acontece em apenas sete episódios. Se não aproveitou o recesso para assistir, aviso que o texto a seguir contém spoilers.

 1- Considere diferentes cenários

No xadrez é necessário considerar diferentes possibilidades no jogo e tentar prever os passos do seu oponente. Isso é mostrado com riqueza de detalhes na minissérie, tanto que a protagonista se torna famosa por desbancar os adversários ao surpreendê-los no jogo.

Em um plano financeiro, também é necessário considerar diferentes cenários e pensar no que fazer diante deles. É o que o dito popular chama de plano B, importante para atravessar momentos difíceis, como o da pandemia.  No planejamento financeiro, também chamamos isso de gestão de riscos, ou seja, a proteção de objetivos financeiros diante da possibilidade de eventos inesperados.

2- Para se desenvolver, revise o que foi feito e planeje

Na psicologia econômica, aprendi que registrar decisões e olhar para elas depois de um tempo nos ajuda a enxergar onde erramos. Assim, podemos evitar repetir o mesmo equívoco no futuro. Beth e outros jogadores na trama abriam mão de horas de descanso, após um dia inteiro de campeonato, para revisar os jogos feitos e planejar como o fariam no dia seguinte, para evitar os mesmos erros.

Ter um plano, no jogo e nas finanças, com certeza pode te colocar um passo à frente. Afinal, mais do que evitar repetir equívocos, ter planos para a utilização do seu dinheiro faz você perder menos tempo e ajuda a escolher a melhor estratégia de investimentos que precisa adotar.

3- Confiança excessiva e tentações atrapalham. E muito

No momento em que a protagonista da série tem a chance de realizar o sonho de ganhar do maior jogador do mundo, escorrega porque cede a tentação de badalar em Paris com uma amiga. Juntou o vício em álcool com a confiança de que, na manhã seguinte, estaria 100% pronta para enfrentar o jogo mais difícil da sua vida. Com o dinheiro, isso também acontece.

Às vezes foi feito um esforço para poupar, e surge a tentação de gastar em algo que não estava planejado. Junto com isso, a confiança de que conseguirá facilmente acumular novamente. São decisões que, com certeza, podem desviar a pessoa de conquistar seu principal objetivo.

4- Duas (ou mais) cabeças sempre pensarão melhor do que uma

Quando Beth decide passar uma temporada em Nova York para treinar jogos de xadrez com seu crush, começamos a entender que o sucesso no jogo também depende de coletividade. É dessa forma que a minissérie explica porque os russos são tão feras nesse esporte: eles reúnem muitas pessoas para revisar, refazer e pensar em jogos para o campeão deles. Unidos, acabam sendo mais fortes que os norte-americanos, que costumam ser mais individualistas. Quando Beth cria esse coletivo, ela consegue alcançar o nível do oponente.

Com as decisões financeiras, essa lei também se aplica. Conversar com a família, contratar especialistas que podem apoiar suas decisões, colocando seus interesses em primeiro lugar, com certeza farão da sua estratégia financeira vencedora. A dica é conversar sobre esse assunto dentro da sua perspectiva e suas necessidades, e não tomar decisões só baseadas em pesquisas na internet.

5- Saiba a hora de abandonar o que não deu certo

O xadrez é um jogo intelectual, de persistência e regras claras. O xeque-mate indica o fim da partida. É quando o rei é atacado e não tem como se locomover, ou seja, não há alternativas de movimentação. Embora a jogada seja o objetivo de cada parte, o mais comum, como mostra a série, é abandonar a partida assim que o jogador percebe que ela está perdida, deitando o Rei sobre o tabuleiro.

Quando se toma uma decisão financeira perdedora, é necessário reconhecer e sair da posição. É melhor aceitar o prejuízo do que continuar insistindo no que não deu certo. E isso vale para tudo: um negócio, um investimento inadequado, um imóvel que está dando prejuízo. Para isso, é preciso ter discernimento para saber diferenciar o que é oscilação de mercado – ou seja, um mau momento temporário de algum investimento – de algo que realmente se provou malsucedido.

 

Rejane Tamoto é planejadora financeira CFP®, jornalista e sócia da FIDUC. Voluntária na Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros-, tem como missão transformar positivamente a vida financeira das pessoas e contribuir para o crescimento dessa profissão no país.